Segurança

Segurança SIP: como não pagar a conta da fraude toll

Publicado em 4 ago 2026 · 9 min de leitura

O cenário se repete toda semana em algum lugar do Brasil: segunda-feira, o financeiro abre a fatura de telefonia e encontra R$ 40 mil em ligações para destinos que a empresa nunca discou — Cuba, Somália, números premium europeus — todas entre sexta 23h e domingo 5h. O PABX foi invadido, o tráfego saiu pelo tronco da empresa, e a conta é dela. Isso é fraude toll, a maior causa de prejuízo súbito em telefonia IP — e um risco quase inteiramente evitável com as camadas certas.

Anatomia de um ataque

A fraude toll industrializou-se: bots varrem a internet inteira, o tempo todo, atrás de qualquer coisa respondendo na porta 5060. Encontrado um alvo, o roteiro é padrão:

  1. Enumeração — o bot testa ramais (100, 101, 200...) e observa as respostas SIP para descobrir quais existem;
  2. Força bruta — dicionário de senhas contra os ramais encontrados. Ramal "101" com senha "101" cai em segundos; senha de 8 caracteres comuns, em horas;
  3. Monetização — com um registro válido, o atacante dispara tráfego para números internacionais premium em que ele recebe por minuto terminado. Madrugada de sexta para sábado é o horário nobre: ninguém olhando, 48 h até alguém notar;
  4. A conta — o tráfego saiu autenticado pelo seu tronco. Contratualmente, é seu.

Variantes usam painéis web expostos (FreePBX com admin/admin), ramais de softphone vazados em laptops perdidos e — no nível da rede — manipulação de identificação de chamada, o caller ID spoofing que também alimenta golpes contra terceiros usando o seu nome.

As 7 defesas, em ordem de custo-benefício

  1. Bloqueie destinos por padrão. DDI e premium fechados; libere só os destinos que a operação usa, por rota e por ramal. É a defesa que mata 90% da monetização — fraude sem destino caro não paga o ataque;
  2. Senhas geradas, não escolhidas. 16+ caracteres aleatórios por ramal, únicas, num gerenciador. Ramal não é conta de e-mail: ninguém digita a senha no dia a dia, não há desculpa para fraqueza;
  3. Firewall por origem. A 5060 do seu PABX não precisa responder para o planeta: restrinja aos IPs do provedor e das redes dos usuários (VPN para os remotos). O bot não quebra o que não alcança;
  4. Fail2ban/limite de tentativas. Cinco falhas de autenticação = IP banido. Reduz a força bruta a ruído;
  5. Limite de chamadas simultâneas por ramal. Recepção não faz 30 chamadas ao mesmo tempo; se o ramal dela está fazendo, não é a recepção. Limites por ramal transformam o vazamento em gotejo;
  6. TLS na sinalização, SRTP na mídia. Fecha a captura de credenciais e a escuta em redes hostis — os transportes estão no guia do protocolo;
  7. Painéis fora da internet. Interface de administração do PABX atrás de VPN, sempre. Sem exceção de "é só essa semana".

A defesa financeira: teto de prejuízo

Todas as defesas acima reduzem probabilidade; nenhuma zera. A última camada é financeira: operar o tronco com teto de gasto. No modelo pré-pago, o prejuízo máximo de qualquer incidente é o saldo em conta — a fraude morre quando o crédito acaba, matematicamente, sem depender de ninguém acordar de madrugada. A economia dessa escolha, comparada ao pós-pago com fatura aberta, está bem desmontada na análise de trunk pré-pago × pós-pago do Clube do VoIP.

Complemento no mesmo espírito: alertas de consumo anômalo do lado do provedor (pico de tráfego internacional fora do perfil = notificação imediata). Pergunte ao seu se ele faz — a resposta diz muito sobre com quem você está operando.

Conta rápida de exposição: tarifa premium típica de destino fraudado × canais do seu tronco × 48 horas de fim de semana. Com 10 canais, o número passa de seis dígitos. Agora compare com o seu saldo pré-pago típico. Essa diferença é o que o modelo de cobrança decide por você.

Detecção: os sinais de que está acontecendo agora

Tudo isso é visível no CDR e nos eventos de registro do PABX. O que falta, em geral, não é dado — é alguém olhando. Um script de 20 linhas conferindo o CDR de hora em hora contra três regras (horário, destino, volume) vale mais que qualquer appliance de segurança parado na caixa.

Plano de resposta a incidente

  1. Corte o tráfego — desabilite as rotas de saída (ou o tronco inteiro). Cada minuto é dinheiro saindo;
  2. Troque todas as credenciais — todos os ramais e o painel, não só o ramal invadido: você não sabe o que mais vazou;
  3. Preserve os logs — CDR, eventos de registro e capturas: são a base da conversa com provedor e, se for o caso, com a polícia;
  4. Avise o provedor imediatamente — provedores sérios bloqueiam destinos e ajudam a conter; alguns estornam parte do tráfego evidentemente fraudulento se avisados rápido;
  5. Feche o vetor antes de religar — descubra como entraram (log de autenticação conta) e corrija antes de reativar as rotas, ou o ataque recomeça em horas;
  6. Post-mortem nas 7 defesas — quais camadas faltavam? Implemente antes do próximo fim de semana.

Perguntas frequentes

O que é fraude toll (toll fraud)?

Uso não autorizado do seu sistema de telefonia para gerar tráfego pago — tipicamente invasão de PABX disparando chamadas internacionais/premium de madrugada, com a conta ficando para o dono do tronco.

Como invadem um PABX SIP?

Força bruta em senhas fracas de ramal (bots varrem a 5060 do planeta 24/7), painéis expostos com credencial padrão e dialplans permissivos.

Qual a defesa mais eficaz?

Camadas — as duas de melhor custo-benefício: destinos internacionais/premium bloqueados por padrão e crédito pré-pago como teto matemático de prejuízo.

Fail2ban resolve a segurança do meu Asterisk?

É uma boa camada contra força bruta, não a solução: combine com senhas fortes, firewall por origem, TLS/SRTP e limites de destino e simultaneidade.

Tronco com segurança de fábrica

Destinos internacionais bloqueados por padrão, alerta de consumo anômalo e crédito com teto que você define. Durma no fim de semana.

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